O setor vinícola no Sul da Europa atravessa um momento de transformação profunda. Embora Portugal, Espanha e França continuem a ser referências mundiais, os dados mais recentes de organismos oficiais revelam que o hábito de "beber um copo" está a mudar de ritmo.
Eis o que os números oficiais nos dizem sobre esta nova realidade:
1. Portugal: O Campeão que Resiste, mas se Transforma
Portugal mantém o título orgulhoso de país com o maior consumo per capita de vinho no mundo, com cerca de 61,7 litros por pessoa ao ano, segundo a Organização Internacional da Vinha e do Vinho (OIV). No entanto, o cenário não é de crescimento absoluto.
Dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) indicam uma ligeira retração no consumo humano por habitante, que passou de 54,5 litros em 2021/2022 para 52,5 litros no período seguinte. A ViniPortugal alerta que, embora o consumo total não tenha colapsado, os locais e as formas de consumo mudaram: há uma maior procura por vinhos certificados e uma subida no preço médio, sugerindo que o português está a beber menos quantidade, mas com maior foco na qualidade.
2. Espanha: Uma Quebra em Busca de Valor
Em Espanha, a tendência de descida é mais acentuada. De acordo com a Organização Interprofissional do Vinho de Espanha (OIVE), o consumo nacional registou uma queda de 5,2% em 2025, fixando-se nos 9,36 milhões de hectolitros.
Esta redução é acompanhada por um fenómeno curioso: enquanto o volume de vendas desce, o valor total das compras subiu ligeiramente (cerca de 1,3% em 2024), segundo o Ministério da Agricultura, Pescas e Alimentação (MAPA). Isto significa que os consumidores espanhóis estão a optar por vinhos de gamas mais altas, mesmo que comprem menos garrafas.
3. França: O Declínio de um Hábito Histórico
A França, historicamente o berço do consumo de vinho, enfrenta o desafio mais estrutural. O consumo tem vindo a diminuir progressivamente há décadas, mas em 2024 a quebra foi de 3,6%, atingindo níveis de procura não vistos desde os anos 60.
As autoridades francesas e a OIV apontam como causas principais a inflação, que encareceu o produto em cerca de 30% face a 2019, e uma mudança geracional. O consumo de vinho tinto, especialmente em refeições familiares, é o que mais sofre, à medida que os novos consumidores privilegiam bebidas mais leves ou momentos de consumo rápido fora de casa.
O que explica esta "ressaca" europeia?
Não se trata apenas de uma crise, mas de uma evolução de estilo de vida. Os relatórios oficiais de instituições como a Coface e o IVV - Instituto da Vinha e do Vinho resumem os fatores:
Saúde e Bem-estar: Uma maior consciência sobre o consumo de álcool.
Economia: A inflação e a perda de poder de compra afastaram o vinho do consumo diário.
Novos Sabores: A concorrência de outras bebidas, como a cerveja artesanal ou opções sem álcool.
O vinho continua a ser parte da alma destes três países, mas o futuro parece passar por menos copos, mais histórias e maior valor.
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